A Shell recebeu licença para atuar como Empresa Brasileira de Navegação (EBN) e passará a operar, com bandeira e tripulação brasileiras, o navio tanque aliviador DP Ametista Brasil. A embarcação será usada no transporte de óleo ao longo da costa brasileira, com foco em operações ligadas ao pré-sal na Bacia de Santos, abrindo espaço para novas rotinas de cabotagem e emprego marítimo nacional.
Shell obtém licença de Empresa Brasileira de Navegação
A Shell anunciou que recebeu a licença para operar como Empresa Brasileira de Navegação, tornando-se, segundo a própria companhia, a primeira empresa internacional de petróleo e gás a obter esse tipo de autorização. Na prática, a licença de EBN permite que a empresa atue diretamente no transporte de cargas por via marítima na costa brasileira, dentro das regras da navegação de cabotagem.
Com essa autorização, a Shell passará a operar o navio tanque aliviador DP Ametista Brasil. Trata-se de uma embarcação registrada no Brasil e operada com tripulação 100% brasileira, o que atende às exigências regulatórias ligadas ao uso de bandeira nacional e ao quadro de marítimos.
Operação do navio tanque aliviador DP Ametista Brasil
O navio DP Ametista Brasil será utilizado no transporte de óleo ao longo da costa brasileira, com foco em operações associadas aos ativos do pré-sal na Bacia de Santos. Esse tipo de embarcação atua como navio aliviador, recebendo óleo cru de unidades de produção offshore e transportando a carga até terminais ou outros pontos de descarga.
A embarcação foi construída na Coreia do Sul para a empresa Knutsen NYK Offshore Tankers (Knot) e integrava a frota afretada pela Shell. Segundo a companhia, a incorporação do navio à frota própria foi o passo que permitiu cumprir os requisitos necessários à licença como Empresa Brasileira de Navegação.
Tripulação brasileira e programa de treinamento
De acordo com as informações divulgadas, o DP Ametista Brasil será operado por 48 marítimos brasileiros, que passaram por um programa específico de treinamento para atuar na embarcação. Em termos práticos, isso pode significar abertura ou consolidação de postos de trabalho nacionais, além de exigências adicionais de qualificação técnica e certificações.
A exigência de tripulação integralmente brasileira em embarcação registrada no país tende a reforçar a demanda por profissionais qualificados em navegação de apoio às operações de óleo e gás, especialmente no entorno da Bacia de Santos e de outros polos offshore.
Ganhos de eficiência e redução de emissões
Segundo Vinicius Mazzei, gerente comercial da Shell Brasil, a atuação no novo segmento busca gerar ganhos de eficiência e financeiros. Ele afirmou que uma embarcação registrada no Brasil e com tripulação local contribui para a redução de deslocamentos logísticos, o que leva a menor consumo de combustível e, por consequência, a redução das emissões associadas às operações.
Do ponto de vista da operação, isso tende a significar planejamento de rotas mais otimizadas na cabotagem, redução de tempos de deslocamento e maior previsibilidade no atendimento às plataformas do pré-sal. Para os trabalhadores embarcados, esse cenário pode se refletir em escalas mais estruturadas e em rotinas de trabalho ajustadas à realidade da costa brasileira.
Reação do setor de cabotagem
O diretor-executivo da Associação Brasileira de Armadores de Cabotagem (Abac), Luís Fernando Resano, classificou como positiva a iniciativa da Shell, destacando que se trata de mais uma empresa estrangeira que aposta na cabotagem brasileira. Em declaração à publicação especializada Portos e Navios, ele manifestou interesse em ter a nova companhia de navegação como associada da Abac.
Essa recepção favorável do setor de armadores sugere que a entrada de grandes grupos internacionais como EBN pode ser vista como fator de dinamização da cabotagem, com potencial impacto em oferta de serviços, competitividade e demanda por mão de obra marítima.
O que isso pode mudar na prática para trabalhadores em SC
Para marítimos, aquaviários e trabalhadores ligados à cadeia de óleo e gás em Santa Catarina, a entrada da Shell como Empresa Brasileira de Navegação na cabotagem de petróleo e gás pode representar, ao longo do tempo, mais oportunidades em operações de apoio e logística costeira. Embora o anúncio foque na Bacia de Santos, é razoável esperar reflexos em portos e bases logísticas do Sul e Sudeste, que participam da cadeia de abastecimento do pré-sal.
Em termos práticos, um ponto a observar é a possível ampliação de vagas para oficiais e marinheiros brasileiros em navios tanque e navios aliviadores, inclusive para profissionais com experiência em operações offshore e de DP (Dynamic Positioning). Isso pode estimular a qualificação contínua, cursos específicos e certificações exigidas por empresas de grande porte.
Para despachantes aduaneiros e profissionais de comércio exterior em SC, a movimentação de grandes players como a Shell na cabotagem brasileira de petróleo pode, com o tempo, gerar novos fluxos de documentação, regimes aduaneiros específicos e rotinas de liberação relacionadas a operações costeiras e offshore. Eventuais escalas em portos catarinenses ou uso de estruturas locais, se vierem a ocorrer, tendem a aumentar a demanda por serviços especializados em despacho, logística integrada e compliance regulatório.
Já para trabalhadores em terminais, operadores portuários e empresas de apoio marítimo que atuam em Santa Catarina, a presença de uma EBN internacional no segmento de transporte de óleo pode reforçar a importância de padrões de segurança, meio ambiente e saúde ocupacional, alinhados às exigências de grandes companhias de petróleo e gás. Isso pode se traduzir em mais treinamentos, auditorias e requisitos de certificação nas operações portuárias e de apoio.
Pontos de atenção
Um primeiro ponto de atenção é acompanhar como a entrada da Shell como Empresa Brasileira de Navegação no transporte de óleo pelo litoral brasileiro se refletirá em novas rotas, escalas e contratos de afretamento, inclusive verificando se haverá impactos diretos em portos e bases de Santa Catarina. Além disso, trabalhadores marítimos devem observar as exigências de qualificação e certificação que empresas desse porte costumam adotar, para se manterem competitivos em processos seletivos voltados a tripulações brasileiras.
Outro aspecto relevante é monitorar se a ampliação da cabotagem de óleo com navios registrados no Brasil trará maior volume de cargas e operações que envolvam terminais, operadores logísticos e serviços de despacho aduaneiro na região Sul, o que pode criar demandas adicionais de mão de obra especializada. Também vale acompanhar eventuais efeitos sobre condições de trabalho, escalas de embarque, segurança operacional e políticas de contratação, buscando sempre a participação sindical e a negociação coletiva como instrumento de proteção de direitos.
Por fim, é importante que os trabalhadores em SC fiquem atentos à evolução da regulamentação da cabotagem e da navegação de apoio às operações de óleo e gás, bem como às oportunidades de formação continuada, cursos de atualização e programas de treinamento oferecidos pelo mercado. A atuação de uma grande empresa como EBN tende a elevar o nível de exigência técnica, mas também pode abrir portas para carreiras mais estruturadas no segmento marítimo, offshore e de comércio exterior ligado ao pré-sal.
